7.3.13

Ah, os bons velhos tempos...

Quando eu era mais pequeno, era comum haver, na escola, meninos com dentes podres. Os meus colegas não iam de férias para lado nenhum, a não ser a Sandra ou a Ana Sofia. Talvez o Carlos também fosse mas, ainda assim, sobravam uns vinte e tal. Era comum as filas da frente, na sala de aula, serem ocupadas pelos meninos que viam mal. Mais perto do quadro, perdiam menos da imensa sabedoria que lhes passava à frente e talvez não precisassem de óculos. O Manuel via mal e tinha uns óculos daqueles que pareciam os do Mestre Malaquias, tosquiador de cavalos e burros a viver lá para o final do bairro: grossos nos aros e nas lentes. O Manuel, cujo pai era ferroviário, ficava com aquele ar de cromo, com os olhos maiores do que o resto dos elementos da cara, nivelados por uma franja cortada a direito, a rimar com duas fartas sobrancelhas. Apesar de tudo, o Manuel via melhor do que outros que tinham de estar mais perto, como o Quim, ou o Helder. Esses não tinham óculos porque os pais não podiam. Lá se iam desenrascando.
É possível que o Manuel tenha estudado; palpita-me, em exercício de profecia barata a roçar o determinismo militante, que, nem o Helder, nem o Quim estudaram muito. Imagino-os a trabalhar, com a mesma dignidade com que tentavam seguir os números e as letras desfocadas no quadro, num qualquer lugar, a receber o ordenado mínimo (essa fartura obscena de dinheiro segundo o Coelho-Mor). O facto de ainda terem trabalho poderá bem ser um resquício do tempo em que passámos a viver acima das nossas possibilidades, como agora se diz. Houve imensa gente que, em escolas como aquela em que andei, deixou de ter dentes podres e passou a ter uns óculos para ver que os olhos do pai são azuis e os da mãe castanhos, que o irmão tem um sinal na cara, do lado esquerdo do nariz, igual ao dele que, aliás, consegue ver no espelho.
Teremos de voltar a ter juízo e viver de acordo com as nossas possibilidades. Há coisas que são claramente supérfluas e os dentes são uma delas. Por que outra razão viemos equipados com trinta e tal? E os olhos, como os rins e os pulmões, são dois: um chega e basta que não se note que esbarramos com as coisas. Na escola passa-se por burro mas isso já é culpa do facilitismo do sistema que o Crato combate, num mundo em que todas as crianças seriam felizes se lhes dessemos jogos matemáticos pela goela abaixo para que pudessem vir a pagar a porcaria da consulta para o dentista ou oftalmologista. 
Na hora de tirar a foto do país para mostrar aos alemães e gente do mesmo género, incluindo aqueles que têm pena que não sejamos todos filhos da Merkel, basta que se fixe um ponto no infinito, de olhos bem abertos, como se estivessemos à espera de uma salvação qualquer e a estivessemos a ver no horizonte, mesmo que não se veja nada. Quanto aos dentes, basta que se feche a boca: mesmo assim, ainda dará para sorrir.

5.3.13

O dom da profecia à Paulo Coelho

Fazer piadas com coelhos é algo om um potencial humorístico limitado. Fazer piadas com Coelhos é já algo arriscado que se deve praticar com capacete, joelheiras e outras coisas termindadas em -eira que protejam zonas particularmente dolorosas do corpo. É, por isso, arriscado e destituído de originalidade o acto de mostrar em público coelhos enforcados a evocar, em metáfora para gente etilizada ou com fraca actividade neuronal, o Coelho.
Contudo, há coisas que fazem parte dos instintos e dos impulsos que nos comandam como animais que somos. Nesta linha, senti-me compelido a fazer piadas sobre Coelhos e decidi não contrariar esse impulso. [aparte Da última vez que, conscientemente, pensei acerca de uma colega que me infernizou a vida por uns dias algo que não se pode pôr aqui por letras (apenas uma pista: há um peixe cujo nome inclui na totalidade aquilo que eu quis chamar à pobre criatura), à força de tanto reprimir por querer ser bom rapaz, acabei por, julgando estar a desabafar com um amigo, enviar uma mensagem insultuosa à colega em questão... Coisas que o inconsciente faz só para mostrar que manda no povo.] Desde esse dia, resolvi que não reprimiria a minha necessidade de verbalizar insultos ou a premência de fazer piadas estúpidas com Coelhos.
Assim sendo, resolvi dedicar-me a Paulo Coelho, astro-vidente, produtor de muitas coisas na linha de Fifty Shades of Grey mas em versão spiritual softporno. No meio disto, perdi-me, coisa a que sou muito dado e que levará, em última instância, a que vá parar ao Inferno por engano (sinto que o Céu teria em mim uma mais-valia por valer sempre a pena ter um tipo despistado daqueles que não sabem onde estacionaram a núvem no celeste parque de estacionamento). Voltando ao Coelho (ACORDEM!! Há imensa malta a dormir já com a história mas vai valer a pena: PROMETO!), diz-se na wikipédia que «Este livro narra a história de um jovem pastor chamado Santiago que, após ter um sonho repetido, decide partir em uma longa viagem da Espanha ao Egito, pois, segundo o sonho, é lá, junto às pirâmides, onde ele irá encontrar um tesouro enterrado. Ao iniciar sua jornada ele se vê lançado em uma imprevisível busca por esclarecimento sobre os grandes mistérios que acompanham a humanidade desde o início dos tempos». Onde é que está a novidade nesta coisa? Tipos a sonhar elm loop é algo que remonta a tempos longínquos! A própria Bíblia tem inúmeros exemplos disso. Parte da Espanha para o Egipto e vai encontrar um tesouro enterrado nas pirâmides... Tem aspecto de conversa de agência de viagens a promover programa em parque temático a terminar com uma extensão a Luxor no dorso de um camelo. Mistérios da humanidade desde o início dos tempos tem aroma a 'profissão mais velha do mundo'... Revelando-se a impossibilidade de fazer o que quer que seja com Coelhos, ocorreu-me que não deixo de ser profeta, na linha do misticismo Coelhiano: hoje, ao ver o telejornal, deparei-me com novo exercício militar, ou algo do género, de nome 'Real Thaw' [real descongelamento ou descongelamento real, como preferirem] e que me transportou até 2008 (http://discursosemmetodo.blogspot.pt/2008/10/portugal-e-operao-orion-08-guerra-das.html). Senti o profeta que há em mim... Senti-me fadado para topar ocasionalmente com exercícios militares e coisas tipo batalhas de playmobil mas com pessoas a sério.
Terminei. Eu não prometi que valeria a pena ler isto até ao fim? Não valeu? Paciência. Como diz um dos meus filhos, eu nem sempre cumpro o que prometo, o que não faz de mim boa coisa. Além disso, relativamente a prometer e não cumprir, digam lá que não dá vontade de fazer piadas com Coelhos?

30.12.10

Wikiderrames

Em rituais nos preenchemos e vamos querendo sempre que nos securizem os gestos repetidos, com os simbolismos a eles associados. De entre todos, convirá desmitificar alguns, ainda que toda a humanidade seja, por isso, privada dessa mística que tolda o entendimento mas sabe bem.
Assim, permito-me aqui, em primeira mão, usando a minha liberdade de expressão como arma e com severo risco para a minha integridade física, moral e coiso, revelar algo que tem sido segredo. O que não é afirmado publicamente é segredo e eu nunca ouvi ninguém dizer:
«As passas de uva, ingeridas à meia-noite na passagem do ano, não levam à concretização de qualquer dos desejos formulados»
Ao contrário dos horóscopos constantes de respeitáveis publicações (refiro, a título de exemplo, A Dica da semana), relativamente aos quais, o cidadão comum não tem qualquer pudor em afirmar que é uma 'balela' para encher papel de jornal, nunca, repito, nunca ouvi qualquer comentário sobre as passas da passagem de ano. Era, portanto, um dos segredos bem guardados da nossa civilização e, qual derrame, fuga, pingar insidioso, vai ser lançado aqui, para que o mundo (leia-se 'as zero pessoas que passam aqui') possam conhecer.
Agora, só me resta arcar com as consequências.

20.12.10

Sabe toda a gente que há pessoas que sabem tudo sobre tudo em todos os lugares e todos os momentos. E, sempre que um parolo como eu faz uma descoberta, vive uma experiência que o deixa ébrio de prazer e tem o azar de não resistir a partilhar, lá tem de ouvir «Eu já fiz isso tantas vezes que me cansei. Estou enjoado. E até já faço isso enquanto corto as unhas dos pés e tiro o cotão do umbigo. » Pois seja, caro amigo que já viu tudo, já fez tudo e tudo sabe, já tentou suicidar-se? Não? Então tente. Vai ver que conseguirá fazê-lo vezes a fio, enquanto recita uma epopeia clássica e ao mesmo tempo que recebe uma entediante massagem. Avance, gosto de o ver feliz.

19.10.08

Portugal e a operação Orion 08: a guerra das danças, a sério!

Vi, há uns dias atrás, no noticiário da Sic, o das 20.00 que se prolonga até às 21 e qualquer coisa, uma 'peça jornalística' de fino recorte sobre a Operação Orion 08. Confesso que ouvi mais do que vi, talvez tenha sido esse o erro. Entrevistaram militares que, dando conta das duas etnias desavindas, Merengue ao Norte e Samba ao Sul, reflectiam sobre as operações militares, os tiros, as brigadas, a logística. Um espectador mais incauto e idiota chapado, como eu próprio, pensaria, de imediato na América Latina. O facto de falarem Português apontaria para uma intervenção de tropas portuguesas na ... Merengosambia (?) Mas não! Tudo aquilo era em Portugal e... a sério. Fui alertado por algo insólito como a tomada, ou algo do género, da ponte da Chamusca. Homens, bravos dos pelotões, desembarcavam furiosamente e disparavam (ouvia-se algo, poderia ser uma gravação), enquanto o país, entre Sambas e Merengues via aquela espécie de paintball para profissionais e gente séria em horário nobre. Fiquei feliz por saber que eu, Samba, não estava em guerra com o meu compadre Jorge, Merengue. Fiquei aliviado porque a minha afilhada não teria de se humilhar dizendo baixinho na escola: "O meu padrinho é Samba..." ou o inverso para o meu filho do meio. Fiquei orgulhoso quando soube que era um exercício: estavam a (t)reinar. Quando for a sério, pelo menos sabemos que sabem cuidar da tomada da ponte da Chamusca e outras coisas inimagináveis. Como os nossos antepassados, treinam. Parece que estou a ver Afonso Henriques (Merengue), com a sua cota de malha de ferro a matar uns sarracenos (Sambas) furiosamente, a dar o máximo, não fosse dar-se o caso de, perante a situação real, não conseguir decepar e mutilar infiéis com eficácia (Já nem falo do que seriam os treinos de Vlad, o Empalador).
E, já agora, por que razão Merengues no Norte e Sambas no Sul (com o Tejo ao meio)? Proponho, para a Operação Orion 09, uma sarrafusca entre os Rojões, ao Norte, e os Açordas, ao Sul (Não quero dar demasiadas ideias mas fazia-se um Pearl Harbour brutal na marina da Amieira, Alqueva!).

12.10.08

Homem que é homem 4

Homem que é homem ou foi à tropa ou é paramilitar, seja lá isso o que for. Ressoou-me nos tímpanos, há pouco tempo, uma pérola neste campo. Por manifestar aquilo que me foi transmitido como 'sinais de pouca contenção militar', parece tornar-se evidente o facto de que não fui à tropa. Curioso e dando de barato a minha falta de contenção militar, facto que, apesar de desconhecer essa figura, muito me orgulha, questionei o meu interlocutor sobre se tinha, ele próprio, ido a essa forja de homens, perdão, de Homens que era a tropa. Respondeu-me: "Não, mas sou paramilitar!" Confesso que fiquei no mesmo patamar de conhecimento em que me encontrava antes desta conversa, excepto em um pequeno detalhe: se até eu, que não fui à tropa, sabia que homem que é homem vai lá assentar praça, constatei, naquele momento, algo que nem toda a contenção do mundo, militar ou não, conseguiu calar. Naquele rosto de pseudo-lenhador-comerciante-de-caça-grossa-do-Tirol-colega podia ler-se o seguinte manifesto: "Homem que é homem vai à tropa mas homem que não vai à tropa e tem problemas em lidar com isso, por achar que os níveis de testosterona baixam só de afirmar que não se foi à tropa, é paramilitar." Peço desde já desculpa aqui a algum paramilitar que leia isto (embora homem que é homem leia pouco, muito menos estas patranhas pouco viris). Aquilo que eu gostaria de saber é como se define um paramilitar. Recorrendo ao velho e insuspeitamente másculo dicionário de Cândido de Figueiredo, datada de 1939, encontro a seguinte informação: "Diz-se dos grupos exercitados e armados que não fazem parte, no entanto, das forças armadas." Destaco, a este propósito, três aspectos:
1) é, afirma-se, um neologismo. É, deduz-se então, uma coisa recente que corresponderá, julgamos nós, ao crescimento do número de indivíduos com problemas em lidar com o estar fora da instituição militar;
2) é aquilo que se diz acerca de... Não é algo que se afirme com convicção, diz-se que... à boca ppequena, como num boato, como quando... É minha impressão ou aqui há gato? Prossigamos, então;
3) o que fazem grupos de gente armada e em boa forma fora das forças armadas? Destaque-se o "no entanto" como que a dizer que tudo apontaria para que estivessem, no entanto (cá está!!), não estão. Lembro-me de como ri, em miúdo, com os Village People a cantar "In the navy...", nomeadamente o índio e o polícia de farto bigode (dois grupos armados e exercitados) e de pensar: "Estes tipos são mesmo... " gente armada e exercitada, o que, segundo Cândido de Figueiredo corresponde a... paramilitares! Ri-me, em miúdo de coisas sérias, muito sérias mesmo.
E, neste momento, apetece-me repetir: é minha impressão ou...
Enfim, há aqui alguns aspectos que me preocupam, bem para além dos meus sinais de contenção militar, ou melhor, da falta desta. O paramilitar é aquele que era para ser (cá está o para-) mas não é! Tal como a Tofina, a Brasa ("parece café mas não é", rezava o slogan), o Mokambo ou a Cevada Solúvel Pensal, tudo produtos respeitáveis, eram para ser café mas não o são, o paramilitar está nesse limbo de solubilidade nas forças armadas; no quartel, na parada, ou em qualquer outro local onde os militares, mesmo os´que o são a sério, sem para-, trabalham (Deixemos de lado as suspeitas insidiosas sobre o árduo trabalho dos militares. Diz-se que são calaceiros e tal mas isso será, no mínimo, calunioso. Serão, isso sim, uma espécie de paratrabalhadores em prol da nação e da defesa nacional, pelo menos.) há de tudo menos paramilitares. Veja-se, ainda a este respeito, o caso da pantera cor-de-rosa: era para ser feroz mas ficou-se pelo facto de ser cor-de-rosa. Passou à história como aquilo que definiríamos como uma parapantera, utilizando o sarcasmo em vez das garras e dentes poderosos. É triste e dá que pensar que são vidas vividas em vão: tudo se conjuga para que pudessem ser militares mas 'morrem na praia'. Talvez, com programas como as 'novas oportunidades', possam paramilitares como o meu excelso e viril colega de suspensórios decorados com motivos de caça, ou mesmo ferozes felinos cor-de-rosa, vir a ser utilizados naquilo que eles realmente se destacam que é, claramente o... a... (esta memória está de rastos...)
Concluo assim, entre duas chávenas de um bom paracafé quente, que homem que é homem vai à tropa ou é paramilitar. O resto será uma longa lista de parahomens dos quais se diz que são homens mas que, por falta de contenção militar (continuo sem saber o que é mas sou, desde já, adepto), estão fora destas coisas dos combates, das armas e do treino intenso que prepara para a luta contra... agora de momento ocorre-me a luta contra o colesterol e os triglicéridos. Nobre, muito nobre.
(Uma palavra de salvaguarda para o caso de o meu colega paramilitar ser um paraparamilitar. Assim sendo, tudo o que reflecti a partir do conceito de paramilitar, por ele personificado, aplica-se aos paraparamilitares, aqueles que eram para ter sido paramilitares mas ficaram fora do grupo armado e exercitado no qual pretendiam entrar.)

5.10.08

Homem que é homem 3

Ouvi, de voz amiga, uma pérola, talvez mesmo a pérola, dos retratos verbais da masculinidade: "Homem que é homem come as abelhas e deixa o mel!" Confesso que imaginar um homem com a boca cheia de abelhas e o mel ali a correr, sem aproveitamento algum, requer, para mim, alguma coragem, até porque representa uma regressão face àquilo que foi o percurso até ao homo sapiens: passar de recolector a assassino de insectos que produzem tão nutritivo alimento é, indubitavelmente, um pequeno passo atrás para a humanidade mas um passo brutal rumo à suma demonstração de desapego pelo doce, coisa de mulheres. Ocorre-me a imagem da Terra Prometida e de como todo aquele povo ansiava por um lugar onde correria leite e mel. Ocorre-me, em seguida que, homem que é homem teria ido a montante do problema e devorado raivosamente as abelhas, sem temer as picadas, os inchaços, as alergias ou a interrupção do fluxo divino do néctar. E, já agora, porque não ir ainda mais a montante, ao próprio Deus e fazer-lhe a pergunta, com algumas abelhas mutiladas ainda aos cantos da boca? Porque razão um Deus, que poderia fazer tudo, mas mesmo tudo, e 'à homem' se lembra destas coisas de leite, de mel, de doces? Nesta linha, homem que é homem renega Deus, entre duas dentadas furiosas em outro qualquer fruto da criação. Diz-se para aí, à boca pequena, que Adão não terá comido o fruto da árvore da sabedoria. Essa maçã açucarada da suprema revelação terá sido relegada para segundo plano. Adão terá, gratuitamente, atacado a serpente à dentada e ao pontapé. Assim sim, temos homem! Homem que é homem permite que lhe seja arrancada uma costela para fazer uma mulher mas só se for à bruta. Imaginar Deus a pedir licença para suprimir a costela a Adão ou a explicar-lhe placidamente o porquê das coisas seria humilhação, desperdício de autoridade, esbanjamento ostensivo de prepotência. Não nos iludamos, contudo, relativamente a Deus, o Pai ou o Filho (sobre o Espírito Santo... nem comento...): fez o homem a partir do barro, convenceu-nos de que voltaríamos ao pó, deixou que pregassem o filho numa cruz sem o prazer de uns danos colaterais e, não esqueçamos, já tinha prometido leite e mel... Faz cerâmica, trabalho doméstico, é objector de consciência e... gosta de alimentar o povo que criou à base de leitinho e docinhos... Homem que é homem daria a Deus umas lições de gestão de imagem. E Deus, já regenerado de toda a iniquidade da doçura, depuraria a Bíblia de todo o perdão, passaria a andar na boa companhia de Caim, faria anedotas grosseiras sobre o engonhado do Job e engordaria o povo a cerveja e coiratos, crús, se fosse preciso! Numa criação assim refundada de raíz, homem que é homem prescindiria do mel e disporia de enxames amargos de abelhas venenosas para, entre dois tabefes num qualquer subproduto de costela, poder abocanhar em extase.

25.8.08

homem que é homem 2

Mais do que ser homem, a vida tem passado por mim e tem-me ensinado coisas muito relevantes. Para além daquilo que distingue um indivíduo de um exemplar de 'homem que é homem', há ainda tudo aquilo que permite separar machos de machões.
Um machão é o tal sujeito que não se nega a prestar o clássico serviço de aquecer as trombas à parceira, seguido dessa cereja no topo do bolo que consiste no cuspir para o chão, precedido da respectiva prospecção ruidosa de fluidos para expectoração. Um machão é troglodita e, portanto, sendo um concentrado violento de testosterona é um ser que tende a violar os direitos, liberdades e garantias de forma ostensiva. O machão tem muitas das suas faculdades toldadas pelas hormonas e acaba por ser uma overdose de virilidade. Assim, homem que é homem não é machão. Um machão é excessivo para se mostrar em vários sítios da moda e dificilmente se conseguirá obter um machão cool ou mesmo sofisticado. Um machão com roupa de marca e vestido como se acabasse de chegar do golfe e regressasse à Quinta da Marinha é uma quimera.
Um homem muito macho não chega nunca a machão e facilmente regressa do golfe para a Quinta da Marinha como peixe regressa à água. Já instalado em casa, se for um macho abonado financeiramente, tem criadas para humilhar, de preferência brasileiras ou africanas, legais segundo ele mas ilegais segundo os critérios da lei e do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Não precisa assim de humilhar a esposa. Aliás, humilhar é suficiente: já não bate. O macho não bate porque, diz ele, já não precisa. Era enfant terrible na escola, uma espécie de poltergeist musculado que fustigava tudo e todos, com algum charme. O macho tem charme e, não adoptando a máxima do 'quanto mais me bates mais eu gosto de ti', fica-se pela confortável 'batia-te mas tu tens um número suficientemente baixo de sinapses para que te submetas sem ter que te sacudir o pó da cara'. Isto faz parte do conjunto de características que nos permite afirmar estarmos em face daquilo que Kuhn não hesitaria em classificar como uma mudança de paradigma. O macho é um homem que é homem mas presta-se à sofisticação. Não é dado à literatura mas sabe de tudo. Quando não é abonado financeiramente é uma espécie de fusão entre a imitação do modelo paterno, que pode estar ou ter estado no limiar do machão, com o homo politicamente correctus. Sabe tudo sobre tudo, conhece a fundo as leis do mercado de valores mobiliários e imobiliários, é um teórico da bolsa, embora não invista porque é adepto do trabalho honesto. O macho é transversal à sociedade portuguesa e é a prova de que a luta de classes encontrou uma fórmula mágica de superação. Ser macho é ser homem, na justa medida. E homem que é homem sabe de medidas, a olho.

23.8.08

homem que é homem 1

Homem que é homem não chora, nunca. Nem sequer lhe apetece chorar, nunca! Homem que é homem ensina os filhos, homens, claro, a não chorar. Chorar é coisa de gente fraca que, sabe-se, é tolerável numa mulher e, mesmo assim...
Um homem, daqueles a sério, fez, em pequeno, patifarias a animais, não por crueldade mas porque é coisa de homem e a testosterona, aliada a uma pulsão para satisfazer os caprichos do método científico, não perdoa, felizmente. Por isso mesmo, homem que é homem ensina os filhos, homens, claro, a fazerem patifarias a animais, não porque não se deva respeito aos animais mas porque não se faz um homem sem arrancar umas asas a uma mosca e ver se ela, apesar desse procedimento iniciático, insiste em querer voar. Homem que é homem sabe, portanto, como mostrar à criação quem é quem na economia da narrativa cósmica: um homem é um homem, o resto é ficção imberbe.
Homem que é homem não teme o perigo, tenha ele a configuração que tiver. Daí que, a título de sumária ilustração, se despreze com vigor, de homem, claro, todo o indivíduo que use, por exemplo, protector solar, ou que respeite as horas nas quais a exposição solar é potencialmente perigosa. Sabe, quem é homem a sério, que nunca o sol fez mal, que os dermatologistas são médicos para mulheres e que o uso de protector solar é um indicador de que a progesterona está a tomar conta dos fracos. Sabe-se também que dos fracos não reza a História e, por isso, um homem que se preze apanha escaldões em cima de escaldões na época balnear até a pele ter um ar de couro curtido, evidenciando que se tem gosto pela vida saudável ao ar livre. Isto é algo que se deve ensinar a um filho, indubitavelmente.
Aos homens verdadeiros estão reservados feitos grandiosos e, por tal razão, não há que perder tempo com coisas supérfluas e manifestamente femininas. Assim sendo, homem que é homem só lê poesia como se de um comprimido se tratasse: sabe mal mas tem de ser, para se ter boa nota e ser um engenheiro de sucesso ou um economista ou algo útil. Homem que é homem não é de letras, é pragmático e faz avançar a humanidade. A sensibilidade não se conjuga aqui com o bom senso e um homem sensível resvala perigosamente para um purgatório de indiferenciação no que ao género diz respeito. O perigo espreita a cada passo.
Enfim, poderia continuar a discorrer sobre o assunto sem alcançar o nirvana da virilidade. Reparemos que nem cheguei a tocar em duas das pedras basilares da afirmação masculina, o futebol e os automóveis. Para que se tenha uma ideia clara deste currículo oculto, dominar berbequins e ferramentas são exemplos paradigmáticos de módulos avançados enquanto que motas, desportos radicais, bater recordes de consumo de cerveja e de cópulas com mulheres com quem se travou contacto há menos de uma hora são módulos facultativos antes dos quinze anos, dependendo, evidentemente, da tradição cultural dos sujeitos.
A verdade, nua e crua, é, contudo, apenas uma: homem que é homem ensina aos filhos homens, na linha da medicina preventiva, como se forja um Hércules, a ferro e fogo se for preciso. Quando não o faz e, consequentemente, não é homem nem é nada, não perecerá necessariamente por isso a esperança. Haverá sempre um avô, um tio, um amigo atento que tenha em si macho que sobre. Estando em marcha esse projecto de vida alternativo, está activado o modo de segurança, como um gerador no caso de falhar o fornecimento de energia eléctrica em rede. Pode ser que tenhamos homem e que do joio nasça trigo, malgré lui.
(Nota: o recurso ao francês não augura nada de bom, neste capítulo, ao autor deste discurso sem método... Para que me reste um pouco de virilidade, afirmo a pés juntos que não sei tocar piano, embora fale francês e muito bem, modéstia à parte. Toco um instrumento musical, o que revela alguma sensibilidade, mas piano não, palavra de homem!)