19.10.08

Portugal e a operação Orion 08: a guerra das danças, a sério!

Vi, há uns dias atrás, no noticiário da Sic, o das 20.00 que se prolonga até às 21 e qualquer coisa, uma 'peça jornalística' de fino recorte sobre a Operação Orion 08. Confesso que ouvi mais do que vi, talvez tenha sido esse o erro. Entrevistaram militares que, dando conta das duas etnias desavindas, Merengue ao Norte e Samba ao Sul, reflectiam sobre as operações militares, os tiros, as brigadas, a logística. Um espectador mais incauto e idiota chapado, como eu próprio, pensaria, de imediato na América Latina. O facto de falarem Português apontaria para uma intervenção de tropas portuguesas na ... Merengosambia (?) Mas não! Tudo aquilo era em Portugal e... a sério. Fui alertado por algo insólito como a tomada, ou algo do género, da ponte da Chamusca. Homens, bravos dos pelotões, desembarcavam furiosamente e disparavam (ouvia-se algo, poderia ser uma gravação), enquanto o país, entre Sambas e Merengues via aquela espécie de paintball para profissionais e gente séria em horário nobre. Fiquei feliz por saber que eu, Samba, não estava em guerra com o meu compadre Jorge, Merengue. Fiquei aliviado porque a minha afilhada não teria de se humilhar dizendo baixinho na escola: "O meu padrinho é Samba..." ou o inverso para o meu filho do meio. Fiquei orgulhoso quando soube que era um exercício: estavam a (t)reinar. Quando for a sério, pelo menos sabemos que sabem cuidar da tomada da ponte da Chamusca e outras coisas inimagináveis. Como os nossos antepassados, treinam. Parece que estou a ver Afonso Henriques (Merengue), com a sua cota de malha de ferro a matar uns sarracenos (Sambas) furiosamente, a dar o máximo, não fosse dar-se o caso de, perante a situação real, não conseguir decepar e mutilar infiéis com eficácia (Já nem falo do que seriam os treinos de Vlad, o Empalador).
E, já agora, por que razão Merengues no Norte e Sambas no Sul (com o Tejo ao meio)? Proponho, para a Operação Orion 09, uma sarrafusca entre os Rojões, ao Norte, e os Açordas, ao Sul (Não quero dar demasiadas ideias mas fazia-se um Pearl Harbour brutal na marina da Amieira, Alqueva!).

12.10.08

Homem que é homem 4

Homem que é homem ou foi à tropa ou é paramilitar, seja lá isso o que for. Ressoou-me nos tímpanos, há pouco tempo, uma pérola neste campo. Por manifestar aquilo que me foi transmitido como 'sinais de pouca contenção militar', parece tornar-se evidente o facto de que não fui à tropa. Curioso e dando de barato a minha falta de contenção militar, facto que, apesar de desconhecer essa figura, muito me orgulha, questionei o meu interlocutor sobre se tinha, ele próprio, ido a essa forja de homens, perdão, de Homens que era a tropa. Respondeu-me: "Não, mas sou paramilitar!" Confesso que fiquei no mesmo patamar de conhecimento em que me encontrava antes desta conversa, excepto em um pequeno detalhe: se até eu, que não fui à tropa, sabia que homem que é homem vai lá assentar praça, constatei, naquele momento, algo que nem toda a contenção do mundo, militar ou não, conseguiu calar. Naquele rosto de pseudo-lenhador-comerciante-de-caça-grossa-do-Tirol-colega podia ler-se o seguinte manifesto: "Homem que é homem vai à tropa mas homem que não vai à tropa e tem problemas em lidar com isso, por achar que os níveis de testosterona baixam só de afirmar que não se foi à tropa, é paramilitar." Peço desde já desculpa aqui a algum paramilitar que leia isto (embora homem que é homem leia pouco, muito menos estas patranhas pouco viris). Aquilo que eu gostaria de saber é como se define um paramilitar. Recorrendo ao velho e insuspeitamente másculo dicionário de Cândido de Figueiredo, datada de 1939, encontro a seguinte informação: "Diz-se dos grupos exercitados e armados que não fazem parte, no entanto, das forças armadas." Destaco, a este propósito, três aspectos:
1) é, afirma-se, um neologismo. É, deduz-se então, uma coisa recente que corresponderá, julgamos nós, ao crescimento do número de indivíduos com problemas em lidar com o estar fora da instituição militar;
2) é aquilo que se diz acerca de... Não é algo que se afirme com convicção, diz-se que... à boca ppequena, como num boato, como quando... É minha impressão ou aqui há gato? Prossigamos, então;
3) o que fazem grupos de gente armada e em boa forma fora das forças armadas? Destaque-se o "no entanto" como que a dizer que tudo apontaria para que estivessem, no entanto (cá está!!), não estão. Lembro-me de como ri, em miúdo, com os Village People a cantar "In the navy...", nomeadamente o índio e o polícia de farto bigode (dois grupos armados e exercitados) e de pensar: "Estes tipos são mesmo... " gente armada e exercitada, o que, segundo Cândido de Figueiredo corresponde a... paramilitares! Ri-me, em miúdo de coisas sérias, muito sérias mesmo.
E, neste momento, apetece-me repetir: é minha impressão ou...
Enfim, há aqui alguns aspectos que me preocupam, bem para além dos meus sinais de contenção militar, ou melhor, da falta desta. O paramilitar é aquele que era para ser (cá está o para-) mas não é! Tal como a Tofina, a Brasa ("parece café mas não é", rezava o slogan), o Mokambo ou a Cevada Solúvel Pensal, tudo produtos respeitáveis, eram para ser café mas não o são, o paramilitar está nesse limbo de solubilidade nas forças armadas; no quartel, na parada, ou em qualquer outro local onde os militares, mesmo os´que o são a sério, sem para-, trabalham (Deixemos de lado as suspeitas insidiosas sobre o árduo trabalho dos militares. Diz-se que são calaceiros e tal mas isso será, no mínimo, calunioso. Serão, isso sim, uma espécie de paratrabalhadores em prol da nação e da defesa nacional, pelo menos.) há de tudo menos paramilitares. Veja-se, ainda a este respeito, o caso da pantera cor-de-rosa: era para ser feroz mas ficou-se pelo facto de ser cor-de-rosa. Passou à história como aquilo que definiríamos como uma parapantera, utilizando o sarcasmo em vez das garras e dentes poderosos. É triste e dá que pensar que são vidas vividas em vão: tudo se conjuga para que pudessem ser militares mas 'morrem na praia'. Talvez, com programas como as 'novas oportunidades', possam paramilitares como o meu excelso e viril colega de suspensórios decorados com motivos de caça, ou mesmo ferozes felinos cor-de-rosa, vir a ser utilizados naquilo que eles realmente se destacam que é, claramente o... a... (esta memória está de rastos...)
Concluo assim, entre duas chávenas de um bom paracafé quente, que homem que é homem vai à tropa ou é paramilitar. O resto será uma longa lista de parahomens dos quais se diz que são homens mas que, por falta de contenção militar (continuo sem saber o que é mas sou, desde já, adepto), estão fora destas coisas dos combates, das armas e do treino intenso que prepara para a luta contra... agora de momento ocorre-me a luta contra o colesterol e os triglicéridos. Nobre, muito nobre.
(Uma palavra de salvaguarda para o caso de o meu colega paramilitar ser um paraparamilitar. Assim sendo, tudo o que reflecti a partir do conceito de paramilitar, por ele personificado, aplica-se aos paraparamilitares, aqueles que eram para ter sido paramilitares mas ficaram fora do grupo armado e exercitado no qual pretendiam entrar.)

5.10.08

Homem que é homem 3

Ouvi, de voz amiga, uma pérola, talvez mesmo a pérola, dos retratos verbais da masculinidade: "Homem que é homem come as abelhas e deixa o mel!" Confesso que imaginar um homem com a boca cheia de abelhas e o mel ali a correr, sem aproveitamento algum, requer, para mim, alguma coragem, até porque representa uma regressão face àquilo que foi o percurso até ao homo sapiens: passar de recolector a assassino de insectos que produzem tão nutritivo alimento é, indubitavelmente, um pequeno passo atrás para a humanidade mas um passo brutal rumo à suma demonstração de desapego pelo doce, coisa de mulheres. Ocorre-me a imagem da Terra Prometida e de como todo aquele povo ansiava por um lugar onde correria leite e mel. Ocorre-me, em seguida que, homem que é homem teria ido a montante do problema e devorado raivosamente as abelhas, sem temer as picadas, os inchaços, as alergias ou a interrupção do fluxo divino do néctar. E, já agora, porque não ir ainda mais a montante, ao próprio Deus e fazer-lhe a pergunta, com algumas abelhas mutiladas ainda aos cantos da boca? Porque razão um Deus, que poderia fazer tudo, mas mesmo tudo, e 'à homem' se lembra destas coisas de leite, de mel, de doces? Nesta linha, homem que é homem renega Deus, entre duas dentadas furiosas em outro qualquer fruto da criação. Diz-se para aí, à boca pequena, que Adão não terá comido o fruto da árvore da sabedoria. Essa maçã açucarada da suprema revelação terá sido relegada para segundo plano. Adão terá, gratuitamente, atacado a serpente à dentada e ao pontapé. Assim sim, temos homem! Homem que é homem permite que lhe seja arrancada uma costela para fazer uma mulher mas só se for à bruta. Imaginar Deus a pedir licença para suprimir a costela a Adão ou a explicar-lhe placidamente o porquê das coisas seria humilhação, desperdício de autoridade, esbanjamento ostensivo de prepotência. Não nos iludamos, contudo, relativamente a Deus, o Pai ou o Filho (sobre o Espírito Santo... nem comento...): fez o homem a partir do barro, convenceu-nos de que voltaríamos ao pó, deixou que pregassem o filho numa cruz sem o prazer de uns danos colaterais e, não esqueçamos, já tinha prometido leite e mel... Faz cerâmica, trabalho doméstico, é objector de consciência e... gosta de alimentar o povo que criou à base de leitinho e docinhos... Homem que é homem daria a Deus umas lições de gestão de imagem. E Deus, já regenerado de toda a iniquidade da doçura, depuraria a Bíblia de todo o perdão, passaria a andar na boa companhia de Caim, faria anedotas grosseiras sobre o engonhado do Job e engordaria o povo a cerveja e coiratos, crús, se fosse preciso! Numa criação assim refundada de raíz, homem que é homem prescindiria do mel e disporia de enxames amargos de abelhas venenosas para, entre dois tabefes num qualquer subproduto de costela, poder abocanhar em extase.