Homem que é homem ou foi à tropa ou é paramilitar, seja lá isso o que for. Ressoou-me nos tímpanos, há pouco tempo, uma pérola neste campo. Por manifestar aquilo que me foi transmitido como 'sinais de pouca contenção militar', parece tornar-se evidente o facto de que não fui à tropa. Curioso e dando de barato a minha falta de contenção militar, facto que, apesar de desconhecer essa figura, muito me orgulha, questionei o meu interlocutor sobre se tinha, ele próprio, ido a essa forja de homens, perdão, de Homens que era a tropa. Respondeu-me: "Não, mas sou paramilitar!" Confesso que fiquei no mesmo patamar de conhecimento em que me encontrava antes desta conversa, excepto em um pequeno detalhe: se até eu, que não fui à tropa, sabia que homem que é homem vai lá assentar praça, constatei, naquele momento, algo que nem toda a contenção do mundo, militar ou não, conseguiu calar. Naquele rosto de pseudo-lenhador-comerciante-de-caça-grossa-do-Tirol-colega podia ler-se o seguinte manifesto: "Homem que é homem vai à tropa mas homem que não vai à tropa e tem problemas em lidar com isso, por achar que os níveis de testosterona baixam só de afirmar que não se foi à tropa, é paramilitar." Peço desde já desculpa aqui a algum paramilitar que leia isto (embora homem que é homem leia pouco, muito menos estas patranhas pouco viris). Aquilo que eu gostaria de saber é como se define um paramilitar. Recorrendo ao velho e insuspeitamente másculo dicionário de Cândido de Figueiredo, datada de 1939, encontro a seguinte informação: "Diz-se dos grupos exercitados e armados que não fazem parte, no entanto, das forças armadas." Destaco, a este propósito, três aspectos:
1) é, afirma-se, um neologismo. É, deduz-se então, uma coisa recente que corresponderá, julgamos nós, ao crescimento do número de indivíduos com problemas em lidar com o estar fora da instituição militar;
2) é aquilo que se diz acerca de... Não é algo que se afirme com convicção, diz-se que... à boca ppequena, como num boato, como quando... É minha impressão ou aqui há gato? Prossigamos, então;
3) o que fazem grupos de gente armada e em boa forma fora das forças armadas? Destaque-se o "no entanto" como que a dizer que tudo apontaria para que estivessem, no entanto (cá está!!), não estão. Lembro-me de como ri, em miúdo, com os Village People a cantar "In the navy...", nomeadamente o índio e o polícia de farto bigode (dois grupos armados e exercitados) e de pensar: "Estes tipos são mesmo... " gente armada e exercitada, o que, segundo Cândido de Figueiredo corresponde a... paramilitares! Ri-me, em miúdo de coisas sérias, muito sérias mesmo.
E, neste momento, apetece-me repetir: é minha impressão ou...
Enfim, há aqui alguns aspectos que me preocupam, bem para além dos meus sinais de contenção militar, ou melhor, da falta desta. O paramilitar é aquele que era para ser (cá está o para-) mas não é! Tal como a Tofina, a Brasa ("parece café mas não é", rezava o slogan), o Mokambo ou a Cevada Solúvel Pensal, tudo produtos respeitáveis, eram para ser café mas não o são, o paramilitar está nesse limbo de solubilidade nas forças armadas; no quartel, na parada, ou em qualquer outro local onde os militares, mesmo os´que o são a sério, sem para-, trabalham (Deixemos de lado as suspeitas insidiosas sobre o árduo trabalho dos militares. Diz-se que são calaceiros e tal mas isso será, no mínimo, calunioso. Serão, isso sim, uma espécie de paratrabalhadores em prol da nação e da defesa nacional, pelo menos.) há de tudo menos paramilitares. Veja-se, ainda a este respeito, o caso da pantera cor-de-rosa: era para ser feroz mas ficou-se pelo facto de ser cor-de-rosa. Passou à história como aquilo que definiríamos como uma parapantera, utilizando o sarcasmo em vez das garras e dentes poderosos. É triste e dá que pensar que são vidas vividas em vão: tudo se conjuga para que pudessem ser militares mas 'morrem na praia'. Talvez, com programas como as 'novas oportunidades', possam paramilitares como o meu excelso e viril colega de suspensórios decorados com motivos de caça, ou mesmo ferozes felinos cor-de-rosa, vir a ser utilizados naquilo que eles realmente se destacam que é, claramente o... a... (esta memória está de rastos...)
Concluo assim, entre duas chávenas de um bom paracafé quente, que homem que é homem vai à tropa ou é paramilitar. O resto será uma longa lista de parahomens dos quais se diz que são homens mas que, por falta de contenção militar (continuo sem saber o que é mas sou, desde já, adepto), estão fora destas coisas dos combates, das armas e do treino intenso que prepara para a luta contra... agora de momento ocorre-me a luta contra o colesterol e os triglicéridos. Nobre, muito nobre.
(Uma palavra de salvaguarda para o caso de o meu colega paramilitar ser um paraparamilitar. Assim sendo, tudo o que reflecti a partir do conceito de paramilitar, por ele personificado, aplica-se aos paraparamilitares, aqueles que eram para ter sido paramilitares mas ficaram fora do grupo armado e exercitado no qual pretendiam entrar.)