25.8.08

homem que é homem 2

Mais do que ser homem, a vida tem passado por mim e tem-me ensinado coisas muito relevantes. Para além daquilo que distingue um indivíduo de um exemplar de 'homem que é homem', há ainda tudo aquilo que permite separar machos de machões.
Um machão é o tal sujeito que não se nega a prestar o clássico serviço de aquecer as trombas à parceira, seguido dessa cereja no topo do bolo que consiste no cuspir para o chão, precedido da respectiva prospecção ruidosa de fluidos para expectoração. Um machão é troglodita e, portanto, sendo um concentrado violento de testosterona é um ser que tende a violar os direitos, liberdades e garantias de forma ostensiva. O machão tem muitas das suas faculdades toldadas pelas hormonas e acaba por ser uma overdose de virilidade. Assim, homem que é homem não é machão. Um machão é excessivo para se mostrar em vários sítios da moda e dificilmente se conseguirá obter um machão cool ou mesmo sofisticado. Um machão com roupa de marca e vestido como se acabasse de chegar do golfe e regressasse à Quinta da Marinha é uma quimera.
Um homem muito macho não chega nunca a machão e facilmente regressa do golfe para a Quinta da Marinha como peixe regressa à água. Já instalado em casa, se for um macho abonado financeiramente, tem criadas para humilhar, de preferência brasileiras ou africanas, legais segundo ele mas ilegais segundo os critérios da lei e do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Não precisa assim de humilhar a esposa. Aliás, humilhar é suficiente: já não bate. O macho não bate porque, diz ele, já não precisa. Era enfant terrible na escola, uma espécie de poltergeist musculado que fustigava tudo e todos, com algum charme. O macho tem charme e, não adoptando a máxima do 'quanto mais me bates mais eu gosto de ti', fica-se pela confortável 'batia-te mas tu tens um número suficientemente baixo de sinapses para que te submetas sem ter que te sacudir o pó da cara'. Isto faz parte do conjunto de características que nos permite afirmar estarmos em face daquilo que Kuhn não hesitaria em classificar como uma mudança de paradigma. O macho é um homem que é homem mas presta-se à sofisticação. Não é dado à literatura mas sabe de tudo. Quando não é abonado financeiramente é uma espécie de fusão entre a imitação do modelo paterno, que pode estar ou ter estado no limiar do machão, com o homo politicamente correctus. Sabe tudo sobre tudo, conhece a fundo as leis do mercado de valores mobiliários e imobiliários, é um teórico da bolsa, embora não invista porque é adepto do trabalho honesto. O macho é transversal à sociedade portuguesa e é a prova de que a luta de classes encontrou uma fórmula mágica de superação. Ser macho é ser homem, na justa medida. E homem que é homem sabe de medidas, a olho.

23.8.08

homem que é homem 1

Homem que é homem não chora, nunca. Nem sequer lhe apetece chorar, nunca! Homem que é homem ensina os filhos, homens, claro, a não chorar. Chorar é coisa de gente fraca que, sabe-se, é tolerável numa mulher e, mesmo assim...
Um homem, daqueles a sério, fez, em pequeno, patifarias a animais, não por crueldade mas porque é coisa de homem e a testosterona, aliada a uma pulsão para satisfazer os caprichos do método científico, não perdoa, felizmente. Por isso mesmo, homem que é homem ensina os filhos, homens, claro, a fazerem patifarias a animais, não porque não se deva respeito aos animais mas porque não se faz um homem sem arrancar umas asas a uma mosca e ver se ela, apesar desse procedimento iniciático, insiste em querer voar. Homem que é homem sabe, portanto, como mostrar à criação quem é quem na economia da narrativa cósmica: um homem é um homem, o resto é ficção imberbe.
Homem que é homem não teme o perigo, tenha ele a configuração que tiver. Daí que, a título de sumária ilustração, se despreze com vigor, de homem, claro, todo o indivíduo que use, por exemplo, protector solar, ou que respeite as horas nas quais a exposição solar é potencialmente perigosa. Sabe, quem é homem a sério, que nunca o sol fez mal, que os dermatologistas são médicos para mulheres e que o uso de protector solar é um indicador de que a progesterona está a tomar conta dos fracos. Sabe-se também que dos fracos não reza a História e, por isso, um homem que se preze apanha escaldões em cima de escaldões na época balnear até a pele ter um ar de couro curtido, evidenciando que se tem gosto pela vida saudável ao ar livre. Isto é algo que se deve ensinar a um filho, indubitavelmente.
Aos homens verdadeiros estão reservados feitos grandiosos e, por tal razão, não há que perder tempo com coisas supérfluas e manifestamente femininas. Assim sendo, homem que é homem só lê poesia como se de um comprimido se tratasse: sabe mal mas tem de ser, para se ter boa nota e ser um engenheiro de sucesso ou um economista ou algo útil. Homem que é homem não é de letras, é pragmático e faz avançar a humanidade. A sensibilidade não se conjuga aqui com o bom senso e um homem sensível resvala perigosamente para um purgatório de indiferenciação no que ao género diz respeito. O perigo espreita a cada passo.
Enfim, poderia continuar a discorrer sobre o assunto sem alcançar o nirvana da virilidade. Reparemos que nem cheguei a tocar em duas das pedras basilares da afirmação masculina, o futebol e os automóveis. Para que se tenha uma ideia clara deste currículo oculto, dominar berbequins e ferramentas são exemplos paradigmáticos de módulos avançados enquanto que motas, desportos radicais, bater recordes de consumo de cerveja e de cópulas com mulheres com quem se travou contacto há menos de uma hora são módulos facultativos antes dos quinze anos, dependendo, evidentemente, da tradição cultural dos sujeitos.
A verdade, nua e crua, é, contudo, apenas uma: homem que é homem ensina aos filhos homens, na linha da medicina preventiva, como se forja um Hércules, a ferro e fogo se for preciso. Quando não o faz e, consequentemente, não é homem nem é nada, não perecerá necessariamente por isso a esperança. Haverá sempre um avô, um tio, um amigo atento que tenha em si macho que sobre. Estando em marcha esse projecto de vida alternativo, está activado o modo de segurança, como um gerador no caso de falhar o fornecimento de energia eléctrica em rede. Pode ser que tenhamos homem e que do joio nasça trigo, malgré lui.
(Nota: o recurso ao francês não augura nada de bom, neste capítulo, ao autor deste discurso sem método... Para que me reste um pouco de virilidade, afirmo a pés juntos que não sei tocar piano, embora fale francês e muito bem, modéstia à parte. Toco um instrumento musical, o que revela alguma sensibilidade, mas piano não, palavra de homem!)