Homem que é homem não chora, nunca. Nem sequer lhe apetece chorar, nunca! Homem que é homem ensina os filhos, homens, claro, a não chorar. Chorar é coisa de gente fraca que, sabe-se, é tolerável numa mulher e, mesmo assim...
Um homem, daqueles a sério, fez, em pequeno, patifarias a animais, não por crueldade mas porque é coisa de homem e a testosterona, aliada a uma pulsão para satisfazer os caprichos do método científico, não perdoa, felizmente. Por isso mesmo, homem que é homem ensina os filhos, homens, claro, a fazerem patifarias a animais, não porque não se deva respeito aos animais mas porque não se faz um homem sem arrancar umas asas a uma mosca e ver se ela, apesar desse procedimento iniciático, insiste em querer voar. Homem que é homem sabe, portanto, como mostrar à criação quem é quem na economia da narrativa cósmica: um homem é um homem, o resto é ficção imberbe.
Homem que é homem não teme o perigo, tenha ele a configuração que tiver. Daí que, a título de sumária ilustração, se despreze com vigor, de homem, claro, todo o indivíduo que use, por exemplo, protector solar, ou que respeite as horas nas quais a exposição solar é potencialmente perigosa. Sabe, quem é homem a sério, que nunca o sol fez mal, que os dermatologistas são médicos para mulheres e que o uso de protector solar é um indicador de que a progesterona está a tomar conta dos fracos. Sabe-se também que dos fracos não reza a História e, por isso, um homem que se preze apanha escaldões em cima de escaldões na época balnear até a pele ter um ar de couro curtido, evidenciando que se tem gosto pela vida saudável ao ar livre. Isto é algo que se deve ensinar a um filho, indubitavelmente.
Aos homens verdadeiros estão reservados feitos grandiosos e, por tal razão, não há que perder tempo com coisas supérfluas e manifestamente femininas. Assim sendo, homem que é homem só lê poesia como se de um comprimido se tratasse: sabe mal mas tem de ser, para se ter boa nota e ser um engenheiro de sucesso ou um economista ou algo útil. Homem que é homem não é de letras, é pragmático e faz avançar a humanidade. A sensibilidade não se conjuga aqui com o bom senso e um homem sensível resvala perigosamente para um purgatório de indiferenciação no que ao género diz respeito. O perigo espreita a cada passo.
Enfim, poderia continuar a discorrer sobre o assunto sem alcançar o nirvana da virilidade. Reparemos que nem cheguei a tocar em duas das pedras basilares da afirmação masculina, o futebol e os automóveis. Para que se tenha uma ideia clara deste currículo oculto, dominar berbequins e ferramentas são exemplos paradigmáticos de módulos avançados enquanto que motas, desportos radicais, bater recordes de consumo de cerveja e de cópulas com mulheres com quem se travou contacto há menos de uma hora são módulos facultativos antes dos quinze anos, dependendo, evidentemente, da tradição cultural dos sujeitos.
A verdade, nua e crua, é, contudo, apenas uma: homem que é homem ensina aos filhos homens, na linha da medicina preventiva, como se forja um Hércules, a ferro e fogo se for preciso. Quando não o faz e, consequentemente, não é homem nem é nada, não perecerá necessariamente por isso a esperança. Haverá sempre um avô, um tio, um amigo atento que tenha em si macho que sobre. Estando em marcha esse projecto de vida alternativo, está activado o modo de segurança, como um gerador no caso de falhar o fornecimento de energia eléctrica em rede. Pode ser que tenhamos homem e que do joio nasça trigo, malgré lui.
(Nota: o recurso ao francês não augura nada de bom, neste capítulo, ao autor deste discurso sem método... Para que me reste um pouco de virilidade, afirmo a pés juntos que não sei tocar piano, embora fale francês e muito bem, modéstia à parte. Toco um instrumento musical, o que revela alguma sensibilidade, mas piano não, palavra de homem!)
3 comentários:
Bem-vindo(a) à blogosfera, caro(a) cp!
Obrigado pela visita!
:-)))
E aqueles homens 100 machos que agarram a namorada pelos colarinhos quando ela discorda deles abertamente e não se deixa tomar por lorpa?!
Esquece-te-te de colocar esses no rol...
;-)
CSD
Moi aussi, j'ai bien aimé ce blogue qui est au début, mais au contraire de toi, mon français est terrible ;). A bientôt.
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