7.3.13

Ah, os bons velhos tempos...

Quando eu era mais pequeno, era comum haver, na escola, meninos com dentes podres. Os meus colegas não iam de férias para lado nenhum, a não ser a Sandra ou a Ana Sofia. Talvez o Carlos também fosse mas, ainda assim, sobravam uns vinte e tal. Era comum as filas da frente, na sala de aula, serem ocupadas pelos meninos que viam mal. Mais perto do quadro, perdiam menos da imensa sabedoria que lhes passava à frente e talvez não precisassem de óculos. O Manuel via mal e tinha uns óculos daqueles que pareciam os do Mestre Malaquias, tosquiador de cavalos e burros a viver lá para o final do bairro: grossos nos aros e nas lentes. O Manuel, cujo pai era ferroviário, ficava com aquele ar de cromo, com os olhos maiores do que o resto dos elementos da cara, nivelados por uma franja cortada a direito, a rimar com duas fartas sobrancelhas. Apesar de tudo, o Manuel via melhor do que outros que tinham de estar mais perto, como o Quim, ou o Helder. Esses não tinham óculos porque os pais não podiam. Lá se iam desenrascando.
É possível que o Manuel tenha estudado; palpita-me, em exercício de profecia barata a roçar o determinismo militante, que, nem o Helder, nem o Quim estudaram muito. Imagino-os a trabalhar, com a mesma dignidade com que tentavam seguir os números e as letras desfocadas no quadro, num qualquer lugar, a receber o ordenado mínimo (essa fartura obscena de dinheiro segundo o Coelho-Mor). O facto de ainda terem trabalho poderá bem ser um resquício do tempo em que passámos a viver acima das nossas possibilidades, como agora se diz. Houve imensa gente que, em escolas como aquela em que andei, deixou de ter dentes podres e passou a ter uns óculos para ver que os olhos do pai são azuis e os da mãe castanhos, que o irmão tem um sinal na cara, do lado esquerdo do nariz, igual ao dele que, aliás, consegue ver no espelho.
Teremos de voltar a ter juízo e viver de acordo com as nossas possibilidades. Há coisas que são claramente supérfluas e os dentes são uma delas. Por que outra razão viemos equipados com trinta e tal? E os olhos, como os rins e os pulmões, são dois: um chega e basta que não se note que esbarramos com as coisas. Na escola passa-se por burro mas isso já é culpa do facilitismo do sistema que o Crato combate, num mundo em que todas as crianças seriam felizes se lhes dessemos jogos matemáticos pela goela abaixo para que pudessem vir a pagar a porcaria da consulta para o dentista ou oftalmologista. 
Na hora de tirar a foto do país para mostrar aos alemães e gente do mesmo género, incluindo aqueles que têm pena que não sejamos todos filhos da Merkel, basta que se fixe um ponto no infinito, de olhos bem abertos, como se estivessemos à espera de uma salvação qualquer e a estivessemos a ver no horizonte, mesmo que não se veja nada. Quanto aos dentes, basta que se feche a boca: mesmo assim, ainda dará para sorrir.

5.3.13

O dom da profecia à Paulo Coelho

Fazer piadas com coelhos é algo om um potencial humorístico limitado. Fazer piadas com Coelhos é já algo arriscado que se deve praticar com capacete, joelheiras e outras coisas termindadas em -eira que protejam zonas particularmente dolorosas do corpo. É, por isso, arriscado e destituído de originalidade o acto de mostrar em público coelhos enforcados a evocar, em metáfora para gente etilizada ou com fraca actividade neuronal, o Coelho.
Contudo, há coisas que fazem parte dos instintos e dos impulsos que nos comandam como animais que somos. Nesta linha, senti-me compelido a fazer piadas sobre Coelhos e decidi não contrariar esse impulso. [aparte Da última vez que, conscientemente, pensei acerca de uma colega que me infernizou a vida por uns dias algo que não se pode pôr aqui por letras (apenas uma pista: há um peixe cujo nome inclui na totalidade aquilo que eu quis chamar à pobre criatura), à força de tanto reprimir por querer ser bom rapaz, acabei por, julgando estar a desabafar com um amigo, enviar uma mensagem insultuosa à colega em questão... Coisas que o inconsciente faz só para mostrar que manda no povo.] Desde esse dia, resolvi que não reprimiria a minha necessidade de verbalizar insultos ou a premência de fazer piadas estúpidas com Coelhos.
Assim sendo, resolvi dedicar-me a Paulo Coelho, astro-vidente, produtor de muitas coisas na linha de Fifty Shades of Grey mas em versão spiritual softporno. No meio disto, perdi-me, coisa a que sou muito dado e que levará, em última instância, a que vá parar ao Inferno por engano (sinto que o Céu teria em mim uma mais-valia por valer sempre a pena ter um tipo despistado daqueles que não sabem onde estacionaram a núvem no celeste parque de estacionamento). Voltando ao Coelho (ACORDEM!! Há imensa malta a dormir já com a história mas vai valer a pena: PROMETO!), diz-se na wikipédia que «Este livro narra a história de um jovem pastor chamado Santiago que, após ter um sonho repetido, decide partir em uma longa viagem da Espanha ao Egito, pois, segundo o sonho, é lá, junto às pirâmides, onde ele irá encontrar um tesouro enterrado. Ao iniciar sua jornada ele se vê lançado em uma imprevisível busca por esclarecimento sobre os grandes mistérios que acompanham a humanidade desde o início dos tempos». Onde é que está a novidade nesta coisa? Tipos a sonhar elm loop é algo que remonta a tempos longínquos! A própria Bíblia tem inúmeros exemplos disso. Parte da Espanha para o Egipto e vai encontrar um tesouro enterrado nas pirâmides... Tem aspecto de conversa de agência de viagens a promover programa em parque temático a terminar com uma extensão a Luxor no dorso de um camelo. Mistérios da humanidade desde o início dos tempos tem aroma a 'profissão mais velha do mundo'... Revelando-se a impossibilidade de fazer o que quer que seja com Coelhos, ocorreu-me que não deixo de ser profeta, na linha do misticismo Coelhiano: hoje, ao ver o telejornal, deparei-me com novo exercício militar, ou algo do género, de nome 'Real Thaw' [real descongelamento ou descongelamento real, como preferirem] e que me transportou até 2008 (http://discursosemmetodo.blogspot.pt/2008/10/portugal-e-operao-orion-08-guerra-das.html). Senti o profeta que há em mim... Senti-me fadado para topar ocasionalmente com exercícios militares e coisas tipo batalhas de playmobil mas com pessoas a sério.
Terminei. Eu não prometi que valeria a pena ler isto até ao fim? Não valeu? Paciência. Como diz um dos meus filhos, eu nem sempre cumpro o que prometo, o que não faz de mim boa coisa. Além disso, relativamente a prometer e não cumprir, digam lá que não dá vontade de fazer piadas com Coelhos?