Quando eu era mais pequeno, era comum haver, na escola, meninos com dentes podres. Os meus colegas não iam de férias para lado nenhum, a não ser a Sandra ou a Ana Sofia. Talvez o Carlos também fosse mas, ainda assim, sobravam uns vinte e tal. Era comum as filas da frente, na sala de aula, serem ocupadas pelos meninos que viam mal. Mais perto do quadro, perdiam menos da imensa sabedoria que lhes passava à frente e talvez não precisassem de óculos. O Manuel via mal e tinha uns óculos daqueles que pareciam os do Mestre Malaquias, tosquiador de cavalos e burros a viver lá para o final do bairro: grossos nos aros e nas lentes. O Manuel, cujo pai era ferroviário, ficava com aquele ar de cromo, com os olhos maiores do que o resto dos elementos da cara, nivelados por uma franja cortada a direito, a rimar com duas fartas sobrancelhas. Apesar de tudo, o Manuel via melhor do que outros que tinham de estar mais perto, como o Quim, ou o Helder. Esses não tinham óculos porque os pais não podiam. Lá se iam desenrascando.
É possível que o Manuel tenha estudado; palpita-me, em exercício de profecia barata a roçar o determinismo militante, que, nem o Helder, nem o Quim estudaram muito. Imagino-os a trabalhar, com a mesma dignidade com que tentavam seguir os números e as letras desfocadas no quadro, num qualquer lugar, a receber o ordenado mínimo (essa fartura obscena de dinheiro segundo o Coelho-Mor). O facto de ainda terem trabalho poderá bem ser um resquício do tempo em que passámos a viver acima das nossas possibilidades, como agora se diz. Houve imensa gente que, em escolas como aquela em que andei, deixou de ter dentes podres e passou a ter uns óculos para ver que os olhos do pai são azuis e os da mãe castanhos, que o irmão tem um sinal na cara, do lado esquerdo do nariz, igual ao dele que, aliás, consegue ver no espelho.
Teremos de voltar a ter juízo e viver de acordo com as nossas possibilidades. Há coisas que são claramente supérfluas e os dentes são uma delas. Por que outra razão viemos equipados com trinta e tal? E os olhos, como os rins e os pulmões, são dois: um chega e basta que não se note que esbarramos com as coisas. Na escola passa-se por burro mas isso já é culpa do facilitismo do sistema que o Crato combate, num mundo em que todas as crianças seriam felizes se lhes dessemos jogos matemáticos pela goela abaixo para que pudessem vir a pagar a porcaria da consulta para o dentista ou oftalmologista.
Na hora de tirar a foto do país para mostrar aos alemães e gente do mesmo género, incluindo aqueles que têm pena que não sejamos todos filhos da Merkel, basta que se fixe um ponto no infinito, de olhos bem abertos, como se estivessemos à espera de uma salvação qualquer e a estivessemos a ver no horizonte, mesmo que não se veja nada. Quanto aos dentes, basta que se feche a boca: mesmo assim, ainda dará para sorrir.
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