Ouvi, de voz amiga, uma pérola, talvez mesmo a pérola, dos retratos verbais da masculinidade: "Homem que é homem come as abelhas e deixa o mel!" Confesso que imaginar um homem com a boca cheia de abelhas e o mel ali a correr, sem aproveitamento algum, requer, para mim, alguma coragem, até porque representa uma regressão face àquilo que foi o percurso até ao homo sapiens: passar de recolector a assassino de insectos que produzem tão nutritivo alimento é, indubitavelmente, um pequeno passo atrás para a humanidade mas um passo brutal rumo à suma demonstração de desapego pelo doce, coisa de mulheres. Ocorre-me a imagem da Terra Prometida e de como todo aquele povo ansiava por um lugar onde correria leite e mel. Ocorre-me, em seguida que, homem que é homem teria ido a montante do problema e devorado raivosamente as abelhas, sem temer as picadas, os inchaços, as alergias ou a interrupção do fluxo divino do néctar. E, já agora, porque não ir ainda mais a montante, ao próprio Deus e fazer-lhe a pergunta, com algumas abelhas mutiladas ainda aos cantos da boca? Porque razão um Deus, que poderia fazer tudo, mas mesmo tudo, e 'à homem' se lembra destas coisas de leite, de mel, de doces? Nesta linha, homem que é homem renega Deus, entre duas dentadas furiosas em outro qualquer fruto da criação. Diz-se para aí, à boca pequena, que Adão não terá comido o fruto da árvore da sabedoria. Essa maçã açucarada da suprema revelação terá sido relegada para segundo plano. Adão terá, gratuitamente, atacado a serpente à dentada e ao pontapé. Assim sim, temos homem! Homem que é homem permite que lhe seja arrancada uma costela para fazer uma mulher mas só se for à bruta. Imaginar Deus a pedir licença para suprimir a costela a Adão ou a explicar-lhe placidamente o porquê das coisas seria humilhação, desperdício de autoridade, esbanjamento ostensivo de prepotência. Não nos iludamos, contudo, relativamente a Deus, o Pai ou o Filho (sobre o Espírito Santo... nem comento...): fez o homem a partir do barro, convenceu-nos de que voltaríamos ao pó, deixou que pregassem o filho numa cruz sem o prazer de uns danos colaterais e, não esqueçamos, já tinha prometido leite e mel... Faz cerâmica, trabalho doméstico, é objector de consciência e... gosta de alimentar o povo que criou à base de leitinho e docinhos... Homem que é homem daria a Deus umas lições de gestão de imagem. E Deus, já regenerado de toda a iniquidade da doçura, depuraria a Bíblia de todo o perdão, passaria a andar na boa companhia de Caim, faria anedotas grosseiras sobre o engonhado do Job e engordaria o povo a cerveja e coiratos, crús, se fosse preciso! Numa criação assim refundada de raíz, homem que é homem prescindiria do mel e disporia de enxames amargos de abelhas venenosas para, entre dois tabefes num qualquer subproduto de costela, poder abocanhar em extase.
2 comentários:
Estamos irónicos... já me fartei de rir. Conheces a da costela? Primeiro fez-se um rascunho e depois a obra-prima ;). Boa semana. Je suis contente que tu es revenue. E agora fazer um texto sobre "mulher que é mulher".... era engraçado. Deixo-te o desafio.
sim, senhor: ora aqui está um texto muito interessante para apresentar no Vaticano durante a bênção "Urbi et Orbi"...
:-)))
También me ha gustado muchíssimo este blog!
CSD
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